Discurso de metafísica, parte 1

Seminário realizado na segunda parte da aula de 15/08 e no início da aula de 22/08.

TO-DO: incluir meu fichamento do texto.

Primeiro momento do texto (§§ 1–7) é a discussão de Deus e da ação divina:

  • Perfeição divina (§ 1);
  • Mundo criado como reflexo da perfeição (§ 2–4);
  • Regras/ordem da ação divina (§ 5–7).

São destacadas duas questões importantes:

  1. O que é a perfeição do mundo?
  2. O que significa o mal?

Teodiceia foi o único livro que Leibniz publicou em vida.

Subtítulos do Discurso de Metafísica não estão presentes na edição original, mas foram introduzidos por Leibniz em uma carta para Arnaud.

A ideia de que a perfeição deve admitir um grau supremo é relevante para a discussão a respeito da perfeição do mundo. Se há uma finitude no mundo, se é possível falar em um grau máximo, é possível falar em uma perfeição do mundo criado, já que a perfeição não é apenas a perfeição absoluta mas poderia englobar, sim, o melhor dos mundos possíveis.

Perfeição como grau de realidade, de ser.

Distinção entre o infinito enquanto indefinido (o infinito dos números), e a infinitude da perfeição divina, da qual a primeira é apenas analogia.

Perfeição metafísica estaria ligada à quantidade de ser que Deus cria no mundo, e a perfeição moral está ligada à maior qualidade de ser. Por isso Deus teria criado seres em todos os graus e não só seres racionais, pois caso contrário não haveria objetos para o exercício da razão.

O mal, em Leibniz, é pensado como uma negação, um limite para o ser, e não uma falta.

A ideia de a vontade divina estar condicionada ao entendimento encontra ancestrais em Aristóteles e em Platão — para este, o Demiurgo estaria abaixo da ideia de Bem e tentaria replicá-la.

Mundos possíveis são incompatíveis entre si, mas não necessariamente contraditórios.

Leibniz toma cuidado para não colocar Deus como imanente ao mundo, ao contrário do que fazia Spinoza.

Máximas subalternas (§ VII) são regras aplicáveis a domínios específicos, estando dentro da ordem deste mundo. Estas máximas constituem o mundo específico, mas não constituem todos os mundos possíveis. São, pois, necessárias ao mundo e contingentes ao universo.

Substância individual (§§ VIII–XVI)

Natureza da substância individual (§ VIII–IX)

Substância como um sujeito de predicados.

Duas ordens: uma ordem lógica (noção, sujeito–predicado, expressão) da definição da substância e uma ordem ontológica (ser, natureza) da sua existência.

Leibniz parte da definição aristotélica de substância individual — de sujeito a quem se atribui predicados mas não é ele mesmo um predicado —, que seria insuficiente para determinar a substância. Movimento geral do parágrafo seria de passar dessa definição nominal (§ 24), tida como a mais aceita até o momento, para uma definição real, que mostre a possibilidade do objeto definido.

Na Parte 2 dos Princípios da Filosofia, Descartes distingue entre a causa primeira do movimento — Deus — e o segundo nível de causa — as leis do movimento — do qual se ocupa. Entende-se o movimento como mudança de lugar, isto é, a mudança de o corpo da proximidade de uns corpos contíguos para outro conjunto de corpos contíguos. No § 16, Leibniz sustenta que essa visão cartesiana sobre o movimento não explicaria como os corpos começam a se mover, o que só seria possível descobrir a partir da causa primeira. Ou seja, é necessária uma causa interna ao mundo, e não o que Paul Valéry descreveu como uma visão cinematográfica do movimento, isto é, como uma sucessão de snapshots do mundo criados por Deus.

Da definição nominal, Leibniz extrai que toda predicação verdadeira tem um fundamento na natureza das coisas. É necessário, pois, que o sujeito contenha o termo de seus predicados. Sujeito como o conjunto de todos os seus predicados e nada além disso. Então a natureza de uma substância individual é uma noção a partir da qual é possível deduzir todos seus predicados, enquanto o acidente não contém tudo quanto se pode atribuir ao sujeito. Na discussão em sala, ressaltou-se que isso significaria que, em uma perspectiva kantiana, todos os juízos para Leibniz seriam analíticos.

(Perfeição em Leibniz usado no sentido grego de completude, acabamento)

Há em toda substância individual, desde sempre, não só as propriedades imediatas, mas os predicados que ainda não ocorrem — e, por mais remotos que sejam, são efeitos da substância —, bem como rastros de tudo que ocorre no universo.

Substância é, pois, um sujeito de infinitos predicados.

Deleuze aponta, aqui, uma inversão que Leibniz opera: a ideia de que toda proposição verdadeira é uma proposição analítica, em contraponto à definição de toda proposição analítica como verdadeira. Extrai, assim, o princípio da razão suficiente do princípio da identidade.

Os princípios da operação leibniziana são o princípio da não-contradição (em sua forma de princípio de identidade) e o princípio da razão suficiente. Os demais princípios que aparecem em Leibniz são daqui extraídos.

No § IX, Leibniz aborda, sem dar nome, o princípio dos indiscerníveis.

O fato de a substância só poder começar por criação e perecer por aniquilamento é consequência de a sua natureza ser completa e já incluir todos os predicados da substância, como seria. Substância, para Descartes, é um ser que só depende de si mesmo para existir, definição que é mantida em Leibniz; então tanto o nascimento quanto a morte (ou seja, o que percebemos como estes fenômenos) já está contido no próprio sujeito.

As substâncias que existem simultaneamente são aquelas que tem percepções aproximadas.

Formas Substanciais (§ X–XII)

As formas substanciais surgem em Leibniz como uma forma de salvar uma abordagem escolástica, particularmente de Tomás de Aquino, recuperando-o em relação às críticas cartesianas. É um conceito recuperado para pensar os corpos a partir da noção de causa final.

§ XII: Outros corpos além dos espíritos têm, também, formas substanciais que agem, mas os espíritos são os únicos que conservam sempre o fundamento do que são, a memória de suas ações.

O Discurso de Metafísica refletiria uma fase aristotélica de Leibniz, que seria contraposta a uma visão mais idealista na Monadologia.

Na discussão em sala, apareceu a distinção entre percepção e apercepção, que seria uma apreensão mais imediata (um ancestral da mais recente noção de consciência).

A liberdade humana (§ XIII)

Se a própria definição de substância já inclui todos os predicados atribuíveis a ela, como se pode falar que os espíritos agem com liberdade? A solução de Leibniz para este problema começa pela distinção entre o certo e o necessário: o que é absolutamente necessário não pode ser diferente sob pena de contradição, enquanto as demais conexões seriam necessárias por acidente mas contingentes em si mesmas.

Em Leibniz, o contingente seria aquilo que é necessário apenas ex hypothese: a necessidade hipotética, oposta à necessidade metafísica, lógica ou absoluta. Não há nada indeterminado no universo, mas algumas coisas são necessárias só em consequência das causas e não em absoluto. A necessidade absoluta aparece, por exemplo, na crítica de Leibniz à completa liberdade que o Deus de Descartes teria ao determinar as leis lógicas.

A contingência residiria, em Leibniz, na possibilidade de Deus escolher outro universo dos universos possíveis. Mas Deus escolheria outro? Aí surge a discussão da Teodicéia, termo cunhado pelo próprio Leibniz.

A liberdade em Leibniz não é pensada em um sentido político, como os antigos pensavam, e aí a discussão de Deus como o monarca seria analógica.

Capacidade de reflexão como alimento central da liberdade.

Para Leibniz, a vontade maléfica seria muito rara, e no geral as pessoas agem buscando o melhor.

Relações entre as substâncias (§ XIV–XVI)

§ 14–15: relações entre as substâncias finitas — Harmonia

§ 16: relações entre as substâncias finitas e Deus

Como que as substâncias individuais, que são razão suficiente de tudo que lhes acontece, podem se relacionar entre si?

Deus enxerga o mundo de todos os aspectos possíveis, e faz com que cada perspectiva possível corresponda a uma subsância. Ao mesmo tempo, cada sustância é um mundo aparte e os fenômenos, que são consequência apenas do ser de cada indivíduo, não são iguais, mas são correspondentes, e essa correspondência é chamada harmonia.

Ao harmonizar as percepções diferentes, Deus torna viável a comunicação (termo que uso aqui em sistema extremamente informal) entre as diferentes perspectivas. Ou seja, o entendimento seria possibilitado por Deus, entre as múltiplas expressões da totalidade.

Researcher, Law and Artificial Intelligence

Currently researching the regulation of artificial intelligence at the European University Institute.